domingo, 7 de fevereiro de 2016

CHICO BRUGUDUM, TIPO PITORESCO DO CARNAVAL SÃO-JOANENSE


Por Gentil Palhares


I.  CHICO BRUGUDUM E O CARNAVAL
Quando o JUIZ SUPREMO chamou a SEU Regaço a Francisco Chagas, o Chico Brugudum, como era conhecido nesta cidade, encontrávamo-nos na fase conturbada da Segunda Guerra Mundial. Deixou-nos sem ruído, sorrateiro e manso, ao contrário da sua existência, que fora barulhenta, ruidosa.

Chico Brugudum, naquela sua filosofia, era um tipo popular diferente dos que viveram nesta cidade, tais como o Marieta, "Zé da Carne", Luís Bocarra, a Muda e a "Tororó Pão-Duro". O Chico freqüentava as igrejas, arranhava mesmo o latim, conhecia a história política de nossa terra, fatos aqui desenrolados com esse ou aquele cidadão, fatos que, chistosa e zombeteiramente, narrava pelas ruas. "Sei de tudo, conheço os particulares" — afirmava ele.

Como chave da existência, os pais do Chico deram-lhe, em menino, o ofício de carpinteiro, mas não se ajeitando com a profissão compulsória, jamais levou a sério a enxó e o serrote. Preferia os botequins, onde não apenas bebericava, como também ia aprendendo a verrumar as pessoas, sobretudo as honestas, irreverente com as autoridades, as quais, a seu modo, se comprazia em ridicularizar:
"Era!... ladroeira!... ladrão... Jehudiel ladrão, Delegado ladrão!... " Era o que se ouvia, isso, às vezes na ausência da pessoa e vezes outras nas bochechas, na cara do sujeito.

O que o Chico Brugudum sentia era como que um desprezo pelas coisas da vida, sobretudo dos homens, externando no seu praguejar surdo, contundente, o que lhe ia por dentro, daí a reação. Arrastando-se pelas paredes, sempre tonto, desfilava todo o fel da sua mordacidade, acusando, ferindo, apontando "ladroeiras", conquanto irradiando do semblante a expressão da bondade, daí o ser estimado de todos, que viam nele, sob o vitupério, a criatura boa, inofensiva na extensão da palavra. Que lhe não mexessem com a boca, porque, então, desfiava uma série de nomes evidentemente honrados, dignos, cidadãos conspícuos, mas "ladrões, ladrões!" — afirmava ele em altas vozes, praguejando, maldizendo pelas ruas da cidade.

Chico Brugudum nasceu na terra são-joanense, que ele viu transformar-se, de burgo, em florescente comuna, até a sua época de existência terrena. Ajudou no ofício de acender os lampiões das esquinas, das praças e das pontes, e viu, muitas vezes, os carros-de-bois gemendo no seu canto triste, "Lenheiro" abaixo; viu as lavadeiras no seu mister pelos chafarizes públicos, nos Largos Tamandaré, Mercês, Rosário, Carmo e Prainha.

Ao deixar esta vida, não sabemos se levara na paz do coração o Dr. Antônio Viegas e o Jehudiel Torga, íntegros cidadãos aos quais, entretanto, não perdoava com o seu xingatório e as suas já conhecidas expressões.

Havia uma época em que ele mais se expandia: era pelo Carnaval, quando as criaturas, — dizem as línguas verrinosas — tiram a máscara que usam fingidamente, para colocar a que verdadeiramente deveriam usar. O Chico sabia disso e valia-se dos três dias entregues à folia, para afirmar, alto e bom som, por todos os lados:
"Ladrões! Ladrões! Ladroeira!..."

A "ladroeira", nesse caso, na sua filosofia, era referente ao descaso que, nos três dias de MOMO, todos dão aos preceitos da honestidade, da honra e como se estivesse tudo errado. E, no entanto, não era Chico Brugudum um indiferente ao Carnaval, nada disso, pelo contrário, era um autêntico folião, organizador do "Zé Pereira" e do célebre "CLUBE ZERO", para cujas fileiras arrebanhava ele toda a garotada das ruas e os homens dos botequins que ia encontrando. A fantasia era uma horrorosa máscara e um muito sujo e velho saco de aniagem colocado nas costas. A meninada que não podia comprar máscara, porque o dinheiro que o Chico arrecadara já ele o havia "bebibo" todo, ia assobiando e gritando, batendo nas latas velhas, como se fossem cuícas e pandeiros.

Era assim que o préstito percorria as ruas da cidade, ostentando um pavilhão alçado pelo Chico, no qual se lia, no pixe ou no carvão:
"BLOCO ZERO! VIVA O BLOCO ZERO! VIVA O BLOCO ZERO!"

O povo, contudo, chamava-lhe, muito acertadamente, "BLOCO DOS SUJOS", porque os que não ostentavam máscara e nem fantasia, lambuzavam a cara e as roupas maltrapilhas com carvão. Formavam, assim, uma farândola de verdadeiros vagabundos, os quais eram comandados pelo Chico Brugudum, no dia mais feliz da sua vida, porque sentia que a ele muitos se nivelavam, olvidando os preconceitos, pessoas de todas as camadas sociais. E é por isso que, todos os anos, quando pelo Carnaval ouço o som das cuícas, o gemido surdo das caixas, o trinado das cornetas, me vem ao pensamento a figura mansa e boa do Chico Brugudum, com aquela sua franqueza, dizendo "verdades", apontando "ladroeiras", na cara, na bochecha dos homens, sobretudo dos que mais primam pela honradez e austeridade em nosso meio, em nossa sociedade, como os excelentes Jehudiel Torga, Augusto e Antônio Viegas.

Foi destemido o Chico Brugudum no seu julgamento, arrastando uma das pernas, gingando o corpo, correndo as mãos pelas paredes e mais arrastando, ainda, o seu sofrimento, a sua dor, que ele levou consigo, na morte, mas positivo e franco, afirmando sempre:
"Era Ladroeira! — ladroeira!..."
"Todo mundo é ladrão!..."

Fonte: PALHARES, Gentil: São João del-Rei na Crônica, p. 63-65.


II.  AGRADECIMENTO


O Blog de São João del-Rei vem agradecer ao historiador Silvério Parada, do IHG de São João del-Rei, sua oferta espontânea da foto de Chico Brugudum de seu acervo para enriquecimento deste post.