terça-feira, 28 de julho de 2015

CONJURAÇÃO MINEIRA: Rede de informações — Visão pelas entrelinhas da historiografia e pela lógica


Por Dr. Alair Coêlho de Rezende



A derrocada de todo e qualquer movimento sedicioso ou de implantação de novos sistemas políticos ou religiosos sempre levou seus integrantes vencidos a serem vitimados por sérias e severas perseguições por parte dos vencedores. É o que a História nos mostra e que aconteceu com os cristãos após a crucificação de Jesus, com a caça às bruxas desencadeada pelas impiedosas autoridades da Santa Inquisição, com o genocídio que, após a tristemente famosa noite dos cristais na Alemanha nazista, se abateu sobre os judeus e outras minorias do povo alemão. Com a Conjuração Mineira não foi diferente, embora nossos historiadores, insensíveis à dolorosa verdade ou até hoje afinados com a orquestração que foi habilmente regida pelo Reino Português, em fins do século XVIII, teimem ou ignorem a discriminação, e consequente segregação, em que foram atirados os parentes dos patriotas que lideraram o movimento de insurreição que, partindo da província das Minas Gerais, deveria ter levado o Brasil à condição de Estado, enquanto instituição política.

Foi o que aconteceu com os parentes do Cap. de Auxiliares José de Resende Costa após sua prisão, bem como de seu jovem filho de mesmo nome. Dizem que sua esposa nunca mais passou pela porta de entrada de sua residência, que até hoje existe (tombada) na cidade que orgulhosamente ostenta o nome dos dois ilustres Conjurados. Resende Costa é a única cidade que homenageia, orgulhosamente, com seu nome, a conjurados mineiros.

Os parentes do Cap. Resende Costa, discriminados, rejeitados, quiçá perseguidos pela população do Arraial da Lage, se concentraram, em sua grande maioria, na Fazenda dos Pintos e lá passaram a viver, como num gueto, cuidando da lavoura e pecuária de subsistência. Até os tecidos eram feitos pelas mulheres da família. Só iam ao arraial em busca de sal e quaisquer outras mercadorias que não conseguiam produzir em seu gueto. E os casamentos consanguíneos, até entre parentes mais próximos, como tios e sobrinhos, se tornaram uma regra, já que eles não conviviam com outras pessoas fora de seu grupo familiar.

E as histórias da Conjuração Mineira e dos sacrifícios impostos aos familiares dos Conjurados foram passando, pela via oral, de geração em geração. Com o tempo essas histórias tomaram uma conotação semelhante a lendas. E foi como tal que eu, pentaneto do Cap. Resende Costa, delas tomei conhecimento.

Na década de trinta, do século XX, as histórias (ou lendas?) que eu ouvia de meus parentes idosos se misturavam em meu cérebro com os causos de assombrações que tanto contavam. Aliás, o meu mundo infantil era mais habitado por assombrações do que por gente viva, mercê, talvez, do enorme isolamento a que meus antepassados foram atirados pelas razões já expostas. Era um mundo medonho.

Quando, afinal, eu já frequentava o curso primário, uma competentíssima professora, dona Dulce Mendes de Resende (ainda viva e centenária) ministrou uma aula sobre a chamada Inconfidência Mineira: falou sobre a enigmática figura do Embuçado que, na noite anterior ao desencadeamento das prisões de determinados revolucionários, saiu, envolto em pesada capa e com a cabeça encapuzada, a visitar determinadas casas em Vila Rica, avisando seus moradores de que a caça ia começar; eu recebi a aula e a decodifiquei como se o Embuçado fosse uma assombração. Foi uma conclusão natural para quem, como eu, vivera até então misturando a Conjuração Mineira com causos de mulas sem cabeça, lobisomens e outras manifestações do além-túmulo.

E nunca mais a figura do Embuçado deixou de bulir com o meu raciocínio e meu interesse pela Conjuração Mineira foi se tornando, com o decurso do tempo, cada vez mais aguçado. 

Ainda, na pré-adolescência, me pus a ler todo e qualquer material impresso que me caía às mãos, mas com particular interesse buscava informações sobre a Inconfidência Mineira e o Embuçado. Li praticamente toda a Biblioteca que fora do Coronel Francisco Mendes de Resende, homem culto e que fora o primeiro Prefeito Municipal de Resende Costa. Evidentemente, as obras que compunham esta biblioteca me eram emprestadas pela filha do finado Cel. Mendes, minha amada mestra Dulce Mendes de Resende que, certamente, selecionava as obras que estavam ao alcance de meu entendimento e necessidade.

Já na adolescência, tornei-me assíduo frequentador da Biblioteca Municipal de Resende Costa, até hoje uma das mais ricas do interior do Brasil. Mas informações sobre o Embuçado eram sempre insuficientes para satisfazer a minha curiosidade.

Com o decurso do tempo atingi a idade própria para prestação do serviço militar obrigatório e fui incorporado ao Regimento Tiradentes – 11º Regimento de Infantaria, sediado em São João del-Rei; esta unidade militar tinha uma excelente biblioteca e eu me tornei seu frequentador habitual e isto me valeu a amizade do então Primeiro Tenente Gabriel Martins Ferreira que descobriu meu gosto pela leitura e que, sem perder a noção e a necessidade de manter a distância hierárquica que nos separava, passou a trocar ideias comigo, sobre minhas leituras e meus interesses historiográficos. Fomos amigos até que a morte o levou. Anos depois, quando ele já estava na reserva, na qualidade de coronel e eu tinha o prazer de recebê-lo em minha casa, com freqüência, ele me confidenciou que sua preocupação, naquela época, era, sobretudo, de me orientar em minhas conclusões derivadas de leituras que, ás vezes, nem eram interpretadas por mim com o rigor próprio dos que têm formação acadêmica. Minha amizade e gratidão por pessoa tão extraordinária inflou e atingiu um limite tal que até hoje eu tenho por sua memória estupenda veneração.

Durante a prestação do serviço militar, graças aos cursos de Formação e Aplicação de Graduados (cabo e sargento), eu percebi que um movimento revolucionário da envergadura da Conjuração Mineira não podia prescindir de um bom Serviço de Inteligência, uma Rede de Informações e Contrainformações. Mas onde encontrar registros sobre isso? Nossos historiadores se atêm, quase sempre, apenas aos Autos da Devassa, e estes nada informam sobre isso.

A busca sobre esta Rede de Informações tomou forma em minha mente quando eu associei a existência de Vitoriano Veloso como um dos agentes da mesma, eis que ele foi preso apenas por transportar correspondência entre membros da sedição libertadora, que então estava sendo abortada. E o Embuçado? Não seria ele também um agente desta rede? E como a notícia da prisão de Tiradentes chegara a Vila Rica, e viera, pelo caminho, desarmando o esquema revoltoso? E tudo isto antes da notícia oficial chegar a Vila Rica. A conclusão me parece lógica: havia uma rede de agentes que, obtendo a notícia nos gabinetes do Vice-Rei, a conduziu a Vila Rica e veio, caminho a fora, abortando o movimento sedicioso. É ululante a lógica que impõe, silogisticamente, a conclusão: esta rede existiu.

Em 1950 eu já tinha clara a ideia de que Tiradentes, embora não fosse o mais graduado, nem militar, nem socialmente, dentre os membros da Conjuração, era o mais ativo deles graças ao seu talento militar, incontestável, e sua indômita coragem para pregar abertamente a necessidade de se proclamar a Independência do Brasil; também já concluíra que ele não era um dos mais pobres e incultos dos revolucionários  já que ele era filho de rico fazendeiro, como atestam as ruínas que ainda existem na Fazenda do Pombal, que foi de propriedade de seu pai e onde ele nasceu; essas ruínas, que seriam de uma dependência de serviços, apresentam um aspecto de grandiosidade e indicam que a casa-sede da fazenda teria sido uma “casa grande” e rica e, que, assim sendo, seus proprietários eram ricos e poderosos. Então Tiradentes era filho de uma família rica, é lógico.

Também é de se relevar que Tiradentes tinha sido próspero comerciante e senhor de escravos e rica tropa de muares. Quanto ao fato de ser um simples alferes sem cultura, esta conclusão é desmentida porque ele fez várias viagens à Europa, mais especificamente à França e, portanto, seria pelo menos um falante do francês e possivelmente do inglês, eis que trazia, em suas andanças pelo interior do Brasil, quando abertamente pregava a revolta armada, necessária à independência do Brasil, uma cópia da Constituição dos Estados Unidos da América, que lia e comentava com fluência e convicção. Ora, se não havia imprensa no Brasil e em Portugal, o governo certamente não permitiria a impressão desta Constituição, por razões óbvias, o que é desnecessário comentar, claro fica que o exemplar da Constituição americana do norte, que consigo sempre trazia, era impressa em inglês ou francês e, então, conclui-se logicamente: Tiradentes que viajava à França e lia e comentava a constituição americana conhecia, além da língua materna, o português, também o francês e, possivelmente, o inglês. Era pois um homem culto, inclusive, como se sabe, sabia latim, que aprendera com um seu padrinho.

Também, é certo, viajara à França exatamente quando as idéias iluministas fervilhavam mundo afora, mas com invulgar vigor na França, onde este ideal atingira seu mais alto nível, resultando na Revolução Francesa, o que inflamava os ânimos dos brasileiros, liderados por jovens que estudavam na Europa. A estes se somavam alguns portugueses que no Brasil residiam e ocupavam cargos de importância na administração da colônia e que comungavam os mesmos ideais independentistas.

Tiradentes, levando-se em conta tudo isto, era um homem dotado de bom nível cultural e também, sabidamente, um homem de coragem. É imperioso concluir que ele era dotado, ainda que por intuição, de bons conhecimentos de estratégia militar, os quais utilizava inteligentemente a serviço da causa a que se entregara. E isto, não há como negar, estava embasado nos ideais da Revolução Francesa e da Independência dos Estados Unidos da América, cujo exemplo fora tomado como paradigma pelos Conjurados.

Ele não era o mais graduado membro da Conjuração mas era, não há como negar, o mais ativo destes membros e foi certamente por esta característica que ele foi escolhido pelo governo português, para ser o único enforcado, não merecendo a comutação da pena, que contemplara os outros. É uma balela a informação de que ele fora enforcado por ser pobre e inculto, ou que outro fora executado em seu lugar. Tantas eram as pessoas presentes ao seu enforcamento que o conheciam, inclusive os dois Resende Costa (aos quais era ligado por laços de parentesco) e o próprio sacerdote que o assistiu no patíbulo, que o conhecia  e bem, por ser o capelão do presídio onde ele passara longo tempo. Essas pessoas não ficariam caladas se houvesse troca da pessoa executada. Ou pelo menos, nem todas, e isto é evidente.

Há que se registrar que a Revolução Francesa e a Conjuração Mineira têm em comum um dado de altíssima relevância e que indica, sem dúvida alguma, que a primeira era a inspiração da segunda: o ano de 1789. Neste ano a Revolução Francesa, com a emblemática Tomada da Bastilha, tornou-se uma realidade e mudou de vez as concepções políticas do mundo ocidental, enquanto que no Brasil, no mesmo ano, a delação traidora de Joaquim Silvério dos Reis, provocou o aborto do movimento independentista que fora engendrado e começaria pela província de Minas Gerais. Sem dúvida alguma nossos Conjurados comungavam os mesmos ideais iluministas que levaram à Revolução Francesa, que mudou, para sempre, os rumos políticos no mundo.

Já com estas informações e conclusões consolidadas passei a buscar, com mais afinco, informações sobre o Embuçado, preocupação maior no que tangia à Conjuração. Parecia-me e ainda me parece, que se for deslindado o mistério que cerca esta figura enigmática, muita luz se fará sobre o célebre movimento revolucionário. Mas as buscas resultavam infrutíferas e eu supunha que isto se dava em razão de meus parcos recursos para encetar viagens custosas e tempo hábil para fazer pesquisas. 

E assim preocupado, mas tendo que lutar arduamente para sobreviver, vi o tempo passar até que, na qualidade de funcionário do Banco da Lavoura de Minas Gerais, fui transferido de Ressaquinha/MG para a agência do banco em Paraíba do Sul/RJ.

Esta transferência deu novo alento às preocupações quanto às até então infrutíferas pesquisas. Quando cheguei ao novo local de minhas atividades profissionais, sempre encontrava alguém que, ao saber que eu era filho de Resende Costa, imediatamente falava na Inconfidência Mineira, tal como era e ainda é, erroneamente, chamada a Conjuração Mineira. Fiquei surpreso quando constatei que havia tanta gente sabendo tanto sobre um assunto que eu supunha só interessava aos mineiros. Mais surpreso ainda fiquei quando soube que um resende-costense fora Prefeito Municipal de Paraíba do Sul, muito querido por sinal, e só então me dei conta que esta era a razão de Resende Costa ser uma cidade conhecida dos sul-paraibanos.

Fiquei conhecendo várias pessoas que muito sabiam sobre a Conjuração Mineira, mas um se destacava e era o Chefe da Agência do IBGE, conhecido como Rubens da Estatística. Procurei-o e não foi difícil nosso entendimento, pois eu estava aguardando nomeação para o mesmo cargo que ele ocupava, mas com lotação em Minas Gerais, uma vez que fora aprovado em Concurso Público, já homologado. Ia, portanto, ser colega de profissão do Rubens, o que facilitou nosso relacionamento.

Suas informações eram muito preciosas e trouxeram novos elementos sobre a Conjuração, ao meu conhecimento. 

E foi assim que eu soube que no Terceiro Distrito do Município de Paraíba do Sul, Sebollas, quando o mesmo ainda era um simples arraial, um enclave nos terrenos da Fazenda de mesmo nome, de propriedade de dona Ana Mariana Barbosa de Matos, bela e ilustrada fazendeira, existira pouso para as tropas que percorriam o Caminho Novo, conduzindo riquezas que iam de Minas Gerais, muitas vezes diretamente para navios ingleses, no Rio de Janeiro. 

O alferes Joaquim José da Silva Xavier que aí sempre pernoitava com sua tropa tornou-se amigo de Padre Paulo, vigário do lugar e irmão da bela dona Mariana, de quem Tiradentes se tornou amante. Com o passar do tempo as pregações revolucionárias do Alferes Joaquim José caíram na alma do povo do lugar e logo, logo, muitos se tornaram Conjurados. E estes existiam por toda a vasta região, desde a Baixada da Guanabara, passando por Porto Estrela, até as fronteiras de Minas e São Paulo. Os Conjurados se reuniam sempre na fazenda de Sebollas, sob a direção de Tiradentes. Este, nestas suas paradas em Sebollas, unia o útil ao agradável: dava descanso às tropas de muares e de homens, revia seu grande amigo Pe. Paulo, namorava sua favorita, pregava e preparava a revolta. Era tão grande a amizade que unia Tiradentes ao Pe. Paulo, que a este o Alferes ofertara uma imagem de Nossa Senhora do Pilar, esculpida em São João del-Rei e que hoje se encontra no Museu, em Sebollas.
Fachada do Museu Sacro Histórico de Sebollas, Paraíba do Sul  


Encontrei também uma informação, em uma publicação que me foi enviada de Teresópolis/RJ, segundo a qual um dos fundadores daquela cidade fora um filho de Tiradentes com dona Mariana. Contudo, desta nota histórica nunca obtive confirmação por outras fontes.

Uma coisa, a partir das informações que eu obtive, contudo, começou a espicaçar minha curiosidade: a Conjuração deveria ser eclodida exatamente no dia da Derrama, uma vez que os sediciosos tinham que estar preparados para deflagrar o movimento em data previamente marcada, já que não havia outro meio para se ordenar o início da operação bélica, face à falta de meios de comunicação. Mas a Derrama só seria executada nas Comarcas que pertenciam à província geológica dos cristais e Paraíba do Sul não atendia esta especificação, logo lá não haveria Derrama. Uma conclusão então se impunha: os Conjurados daquela região o eram verdadeiramente por serem patriotas e desejarem a independência e soberania do Brasil, pois não tinham razões para temer a arrecadação punitiva a que se dava o nome de Derrama.

Aliás, entendo que todos os Conjurados eram patriotas, o que até levou um padre a criticar esta afirmativa que eu fizera, dizendo que só se podia falar em patriotismo a partir de 1822, com a declaração de nossa Independência. Mas esse crítico bem intencionado devia entender mais de missas do que de educação cívica, eis que a ideia de pátria e comportamento patriótico, por parte de brasileiros, se consumara nas batalhas de Guararapes, em abril de 1648 e em fevereiro de 1649, quando brancos já brasileiros natos, índios, negros, mulatos e outros, pegaram em armas e expulsaram os holandeses de nossa terra. Pela primeira vez, em nossa história, o povo lutou contra o invasor e não o fez em defesa do patrimônio colonial de Portugal. Aí se dera a defesa do Brasil, enquanto Pátria. De se destacar que no aceso desta luta em Pernambuco, em 19 de abril de 1648, é que se considera como a data de criação do Exército Brasileiro. É oportuno então que se diga: nossa Pátria nasceu quando foi criado o Exército Brasileiro. Disto não há dúvidas. 

Em 1822, o que nasceu foi o Estado brasileiro, com o reconhecimento internacional de nossa soberania.

Face a este raciocínio, que não é uma divagação mas a constatação de fatos históricos, a Conjuração Mineira foi abortada cento e quarenta anos depois que houve a primeira manifestação de patriotismo do povo brasileiro. Não há como negar: os Conjurados eram sim patriotas e queriam ver sua pátria livre do jugo cruel de Portugal.

Com as informações obtidas e somadas às que eu já conhecia, inclusive quanto à exposição pública do “quarto superior esquerdo” do herói, em um poste, em Sebollas, para exemplo intimidador, dissuadindo a população de outras tentativas revoltosas, eu concluí, logicamente, que se o restos mortais de nosso herói maior ali foram expostos, com absoluta certeza, esta decisão partiu do conhecimento, por parte das autoridades, de que na região havia mais sediciosos. Quanto a isto não há dúvidas.

Certo domingo, quando eu morava em Paraíba do Sul, embarquei em um automóvel de praça (ainda não se falava táxi) e fui a Sebollas, que distava uns vinte quilômetros, em estrada sem pavimentação. Cheguei exatamente quando começava, na matriz, a missa dominical. Assisti a ela e ao final procurei contatar as pessoas conhecidas que saíam da igreja, buscando informações.
Matriz de Sant'Ana, em Sebollas


Ninguém sabia onde os restos mortais de Tiradentes tinham sido expostos, mas todos contavam que, após uns poucos dias, os soldados, que ficaram guarnecendo a tétrica exposição, foram embora e então o braço do herói desapareceu. Todos contavam uma história que mais parecia uma lenda: Padre Paulo, amigo e quase “cunhado” de Tiradentes, em companhia de um irmão, à noite, furtou o braço do amigo e o enterrou sob o altar-mor da matriz. Mas ninguém nunca procurou averiguar isso, mesmo porque ninguém ousaria tocar no altar, tal era o respeito que se tinha por objetos sagrados, e o altar o era.
No Museu Sacro Histórico de Sebollas, urna contendo: à esq., dois hemisférios do crânio de D. Mariana; à dir., pedaços da urna funerária em que Dona Mariana foi sepultada e, no centro, quatro fragmentos do braço esquerdo de Tiradentes


Quando fiz essa visita a Sebollas, ali, em frente à matriz, decidi que escreveria um livro sobre o assunto e o publicaria. O que de fato fiz. Concluíra então que a Conjuração não era só Mineira, mas Brasileira, pois verdadeiramente ultrapassara as fronteiras de Minas Gerais.

O que ocorreu, segundo meu raciocínio, é que as autoridades portuguesas, sabedoras da intentona, não quiseram, habilmente, combatê-la com rigor bélico, como um movimento que visava a Independência do Brasil. Isso, segundo, certamente, decidiram, levaria o mundo a reconhecer que o movimento era uma decorrência dos ideais iluministas e que acontecia na esteira da Revolução Francesa, o que era uma verdade. E, se houvesse uma operação para desmantelar o movimento patriótico brasileiro, o mundo tomaria conhecimento do movimento revolucionário e muitos países, sobretudo os que também estivessem marchando no compasso marcado por Paris, se apressariam a reconhecer o Brasil como Estado Soberano. E Portugal perderia sua jóia colonial mais rica. Isto seria inevitável.

Então os governantes portugueses decidiram tratar o assunto como se fosse uma mera rebelião, de pouca monta, intentada por maus pagadores de impostos e só prenderem, mais para intimidação do povo da colônia, sobretudo da Província de Minas Gerais, uns poucos líderes do movimento. E deram ao movimento independentista brasileiro, minimizando-o, o nome impróprio de Inconfidência Mineira. E se instaurou a Devassa. E o mundo e toda nossa gente aceitou a situação e a conveniente denominação de Inconfidência. A esta denominação, de todo deturpadora da verdade e de negação dos ideais de patriotismo dos brasileiros, se curvaram servilmente todos, inclusive os nossos historiadores, que passaram a dançar conforme a música executada por Portugal.

Tal foi a humilhante aceitação que ninguém percebe, ou finge que não percebe, que a Independência do Brasil ocorreu somente trinta anos depois da execução de Tiradentes. E nossos historiadores parecem não considerar que a Inconfidência Mineira (assim erroneamente denominada) foi o estopim que redundou na nossa Independência, embora os louros tenham sido usurpados pelos que afinal a proclamaram. Ninguém, inclusive, considera que o próprio Tiradentes declarou que havia dado um nó tão perfeito na história que em cem anos não o desatariam. A Conjuração Mineira e a Independência do Brasil são apenas atos que constituem a mesma peça da história pátria.

Em 1955 eu fui nomeado Agente de Estatística e Chefe da Agência do IBGE em Rio Piracicaba/MG e tive aumentadas minhas chances de pesquisar sobre a rede de informações e contrainformações da Conjuração Mineira, graças à presença de Agências do IBGE espalhadas por todo o Estado. Mas todos os meus esforços, com o auxílio sempre de meus colegas “ibgeanos”, foram infrutíferos. Parece que o Embuçado tinha recomendado aos conjurados que queimassem toda a documentação que podia incriminá-los e sua recomendação teria sido cumprida à risca. Nada encontrei a respeito. Fiquei mesmo com minhas conclusões embasadas na, logicamente, comprovada necessidade bélica de que um movimento tão grande como a Conjuração não podia prescindir de um bom Serviço de Inteligência. E Tiradentes sabia disso quase por intuição, já que não tinha formação acadêmica na espécie, mas era versado na arte da estratégia militar. Ele, que acompanhara, certamente, todo o movimento que resultara na Revolução Francesa, inclusive visitando a França, conhecia o gênio de Napoleão Bonaparte, que se tornaria, pouco depois, Imperador daquele país, no caudal da Revolução. E, parece evidente, ele sabia que para Napoleão “fazer a guerra é antes de tudo obter informações”. 

Também nos parece evidente que Tiradentes conhecia uma das mais antigas obras sobre estratégia militar, A Arte da Guerra   de Sun Tzu (IV Sec a.C), onde há a lição por este emitida: “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória obtida sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.

Contudo, no tempo que passei no IBGE, em Minas Gerais, não consegui nenhuma prova documental de que tal rede existira ou mesmo funcionara.

Finalmente, fui transferido, pelo IBGE, para o estado de Goiás e lá surpreendentemente descobri que Bárbara Eliodora era descendente de uma família goiana e mais, que o Cap. Joaquim Segurado, que comandara as tropas que participaram do enforcamento de Tiradentes, foi o primeiro brasileiro a alcançar o Generalato no Exército Português, e que era filho de Goiás; este oficial, no início de sua carreira, tinha servido em São João del-Rei.

Também fui informado que muitos “goianos” (ainda não existia a província de Goiás) foram membros ativos da Conjuração Mineira, ou Brasileira. Conjurados existiram em Vila Boa (depois capital), Curralinho (Itaberaí, onde morei), Corumbá de Goiás, Meia Ponte (Pirenópolis), Sant’Ana das Antas (Anápolis) e muitos outros lugares. Uma conclusão então se impôs: se existiam Conjurados, além de Minas, também na Capital da Colônia, no interior do província do Rio de Janeiro, em Goiás, no norte e nordeste de São Paulo, principalmente em Taubaté, e  na Bahia, então o movimento não era só mineiro e de maus pagadores de impostos, mas era, não há dúvidas, uma Conjuração Brasileira.  E eu passei a considerar que o movimento possivelmente tinha atingido Pernambuco, cuja gente já provara em Guararapes seu amor á pátria; também em Mato Grosso, possivelmente existissem Conjurados, inclusive porque lá morava um padre que era irmão de Tiradentes e que talvez comungasse os mesmos ideais que eram a razão da vida deste. Para mim não havia mais dúvidas, a chamada Conjuração Mineira, ou como quisera a Coroa Portuguesa, Inconfidência, não era só mineira coisa nenhuma nem fora uma rebelião de maus pagadores de impostos: o movimento era mesmo uma Conjuração Brasileira, e a rede de inteligência, por uma lógica que se impunha, existira mesmo. 

Mas, como diziam os antigos: “ás vezes atira-se no que se vê, e abate-se o que não se vê” e é isso que me ocorre agora. É preciso divagar um pouco sobre a disposição das tropas da Conjuração. Logisticamente previa-se a seguinte disposição e movimentação: na capital da colônia os Conjurados tentariam prender o Vice-Rei, já que tinham contingentes infiltrados na tropa legalista. Contudo, o que era previsível, se não fossem de todo bem sucedidos, a tropa legalista marcharia para Vila Rica e aí os Conjurados da região de Paraíba do Sul e Sebollas, numa primeira linha, postados em Porto Estrela e na Serra de Petrópolis, a conteria e, se não fosse contida esta tropa do governo, já aí enfraquecida e com linha distendida, o que era um sério problema logístico, quanto a suprimentos, teria que enfrentar outro grupamento entrincheirado em Paraibuna, numa segunda linha defensiva. E depois, se não fosse derrotada em Paraibuna, ou na travessia do Rio Paraíba, iria ser combatida por poderoso contingente, este do Padre Toledo e comandado por Oficiais de São João del-Rei, no alto da Serra da Mantiqueira, numa terceira linha de defesa. Uma tropa plantada em pontos elevados como os da Mantiqueira, à espera de tropas que viriam de longa marcha, desde o Rio de Janeiro, é quase imbatível, pela própria situação do terreno, e dificilmente os legalistas chegariam a Vila Rica que, aliás, já estaria, a esta altura, dominada pelo Cel. Freire de Andrade, o qual já teria prendido o Governador que, segundo alguns Conjurados, seria decapitado. Vila Rica a esta altura já estaria dominada e a Capital instalada em São João del-Rei, à espera do reconhecimento Internacional. 

Ao Capitão José de Resende Costa caberia somar-se às tropas postadas na Mantiqueira e, se necessário, que estivessem posicionadas na região de Brumado e Congonhas do Campo.

Quanto às tropas do Padre Rolim e de outros Conjurados do norte de Minas, não desceriam para Vila Rica, que estava longe e suas linhas ficariam muito distendidas, mas se voltariam para defender Minas Gerais de possíveis avanços de tropas legalistas da Bahia, que certamente estariam enfraquecidas, porque não poderiam deixar sua fronteira norte desguarnecida, face à possibilidade da chegada de contingentes pernambucanos.

Os legalistas de São Paulo seriam contidos pelos Conjurados do norte e nordeste da Província, principalmente os de Taubaté, do Triângulo Mineiro e Goiás, regiões que ainda pertenciam a São Paulo. Não poderiam, contudo, desguarnecer a fronteira sul e leste da Província, eis que havia o risco de sofrerem ataques de tropas revolucionárias sulistas e do Mato Grosso.

Entendo que, se se chegasse ao “dia do batizado”, a Conjuração sairia vitoriosa e se faria a Independência do Brasil. Joaquim Silvério dos Reis pôs tudo a perder.

Mas, voltando ao cerne da questão: era impossível a Conjuração ser bem sucedida se não houvesse uma Rede de Informações ligando seus vários e espalhados grupos, às vezes longe, muito longe, uns dos outros.

Temos que considerar inclusive que a senha para a deflagração da revolução fora criada e era: “TAL DIA É O BATIZADO”. E quem levaria esta senha a cada um dos grupos de combatentes que então se levantariam em armas? Certamente os mensageiros que compunham a rede.

E em caso de ser necessário abortar a movimentação revolucionária? Tinha que haver um senha própria que, por uma questão de lógica seria, por exemplo: “NÃO HAVERÁ MAIS BATIZADO”.

Estas senhas, em sendo necessário, teriam que circular com rapidez ligando os Conjurados da Corte, das províncias do Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Bahia, quiçá Pernambuco e quem sabe, até do sul do Brasil.

Infelizmente, com a traição do famigerado Joaquim Silvério dos Reis, houve necessidade de se abortar o movimento. E a notícia da prisão de Tiradentes, no Rio de Janeiro, chegou a Vila Rica muito antes da comunicação oficial feita pelo Vice-Rei ao Governador das Minas Gerais. Certamente esta circunstância não deixa dúvidas de que a necessária Rede de Inteligência existiu mesmo. E seus agentes certamente se revezaram, sem parar, seguindo mesmo até durante as noites, e o fizeram, porque adotavam regras maçônicas (comprovadamente), em duas direções, levando a mesma mensagem. E como, necessariamente, a mensagem não era escrita, mas oral, tinha que ser bem sintética. E, em sendo assim, ela seria feita através de uma senha, de fácil memorização e logo entendida pelas pessoas a quem se destinou. Era, por exemplo, como já aludimos: “não haverá mais batizado”.

E a mensagem, que seguiu por duas vias, certamente, longe da Estrada Real, por razões óbvias, fora desarmando todo o esquema beligerante até que os mensageiros das duas pontas de lança se encontraram em Vila Rica, sede da Conjuração. E quando os dois mensageiros se encontraram, verificaram que a senha trazida pelos dois, era a mesma, portanto, verdadeira. E a Conjuração foi desarmada afinal.

Quando, finalmente, o estafeta real chegou a Vila Rica com ordens do Vice-Rei, para prender os Conjurados, a lista destes fora minimizada, contendo poucos nomes e o nome da patriótica Conjuração já estava transformado em "Inconfidência Mineira". Houve então algumas reuniões apressadas e as autoridades em 17/05/1789 (dezessete de maio de mil setecentos e oitenta e nove) decidiram que no dia seguinte começariam as prisões e seriam tomadas todas as medidas necessárias para debelar a Conjuração.

Nesta noite, uma figura coberta com pesada capa e usando pesado capuz saiu a percorrer as ruas de Vila Rica e indo, à socapa, a casas determinadas, avisava certas pessoas que no dia seguinte começariam as prisões dos conjurados. Este estranho caminhante e mensageiro, assim embuçado, passou à história conhecido simplesmente como  Embuçado e, até hoje, ninguém sabe quem era, donde veio nem para onde foi. Há sobre ele um sepulcral silêncio. Só se sabe que existiu e que cumpriu sua missão. Queremos crer que ele era membro da intrigante Rede de Informações e Contrainformações.

Também membro desta rede, a nosso ver, era o Conjurado Vitoriano Veloso, que foi preso transportando uma carta de dona Hipólita, da Fazenda da Ponta do Morro (Bichinho) para seu marido, o Conjurado Cel. Antônio Francisco Lopes de Oliveira.

Os Autos da Devassa nada esclarecem sobre isso e queremos crer que estes Autos foram produzidos com o firme propósito de apequenar o patriótico movimento revolucionário que culminou com nossa Independência.

Pena que nosso historiadores só tenham para estudo esses Autos que retratam o inquérito policialesco que, como todo inquérito policial, em todos os tempos, mormente quando há interesses de Estado, são pré-conduzidos, inclusive, levando alguns inquiridos a declararem o que não desejam, tal como fazer delações, vítimas que são das manipulações, pressões e até premiações, tudo bem orquestrado por hábeis inquisidores.

Muitos historiadores procuram apequenar a memória de Tiradentes, inclusive, chamando-o de mártir, quando, na verdade, ele foi um herói. Mártir, a meu ver, é aquele que é sacrificado por suas convicções religiosas e que aceita o martírio com ares de beatitude e cônscio de que receberá recompensas na vida além-túmulo, em um paraíso e reino de esplendor, o céu. Isto é próprio dos santos. Herói, no entanto, é aquele, como Tiradentes, que vai para a morte, para o patíbulo, altaneiro, cabeça erguida, valente e cônscio de que sua morte se deve ao caráter forte de quem morre, mas não abdica de seu ideal. 

Há até historiadores que dizem que Tiradentes foi sacrificado como bode expiatório, porque ele não era o cabeça do movimento. Que seja! Contudo, era ele o único que, destemidamente, por todos os lugares que passava, se punha a pregar as vantagens de termos uma Pátria Livre e que arregimentava homens para a luta. Os outros, mormente os árcades, eram homens de gabinete, alfarrabistas, utopistas, poetas, magistrados, idealistas, sem ação. Homens que não arrostavam o perigo que a empreitada requeria. E quase todos eram homens de aguardar e cumprir ordens. Careciam de ser comandados. Não comandavam.

Só Tiradentes, destemidamente, se punha em campo e se arriscava e foi graças a ele que a Conjuração alcançou a grandeza com que a vemos e a veneramos hoje.

Basta! Chega de chamarmos de mártir ao Alferes José Joaquim da Silva Xavier – O Tiradentes!

Ele foi um HERÓI, o nosso HERÓI!   

E no mundo ninguém foi maior que ele!