sexta-feira, 26 de maio de 2017

RESENHA DO LIVRO "A POLÔNIA E SEUS EMIGRADOS NA AMÉRICA LATINA (até 1939)", por JERZY MAZUREK


Por Aleksandra Pluta

Esta é a tradução (trad. Mariano Kawka) de uma versão modificada e ampliada do livro Kraj i emigracja de Jerzy Mazurek, publicada em 2006, pelo Instituto de Estudos Ibéricos e Íbero-Americanos da Universidade de Varsóvia e Museu de História do Movimento Popular Polonês em Varsóvia.


Pela editora Espaço Acadêmico de Goiânia acaba de ser publicado (2016) um importante livro sobre a história da emigração europeia para a América Latina, especificamente sobre os imigrantes poloneses no Brasil e na Argentina. O tema de migrações no mundo de hoje é um dos mais atuais seja do ponto de vista sociológico, antropológico ou político. Seria muito difícil entender este fenômeno sem olhar para trás, sem estudar bem as ondas migratórias que tiveram lugar no nosso passado recente, no século XIX e no começo do século XX, para não mencionar movimentos migratórios anteriores. A obra do destacado historiador polonês Jerzy Mazurek, “A Polônia e seus emigrados na América Latina (até 1939)”, originalmente lançada na Polônia em 2006, analisa os movimentos migratórios da Europa para a América Latina, com um especial enfoque na colonização dos camponeses poloneses que povoaram o sul do Brasil. O que torna o livro uma referência importante nos estudos sobre migrações é o fato dele permitir ao leitor ter uma visão muito mais ampla sobre a questão, que não se limita só ao caso polonês. O autor preocupou-se em estender o horizonte, comentando a situação política e socioeconômica da Europa e das Américas no século XIX e no começo do século XX para explicar claramente o contexto global que justifica o desejo (ou, na maioria dos casos, necessidade) de grandes levas de pessoas de emigrarem em busca de um futuro melhor em outro hemisfério. O autor, cuja pesquisa durou vários anos, fez um trabalho pioneiro: as referências bibliográficas são numerosas e em grande parte não accessíveis ao leitor brasileiro, sendo parte de acervos de arquivos nacionais poloneses ou ucranianos. Isso permite uma visão bilateral ao mostrar seja a situação dos emigrantes ainda na Polônia (fazendo um retrato detalhado do contexto histórico, político, econômico e social), seja a situação deles no lugar de chegada, retratando, de uma maneira igualmente detalhada, as condições de vida no Novo Mundo. O olhar do autor está direcionado especificamente à situação dos camponeses, o que não causa surpresa, pois a maioria dos imigrantes europeus provêm desse grupo social e, depois de ter chegado ao Brasil ou à Argentina, continuou trabalhando na terra. O número dos imigrantes poloneses no Brasil ao longo do século XIX e até o fim da Segunda Guerra Mundial chegou a cerca de cinco milhões de pessoas. E, vale a pena ressaltar, este número não é o mais significativo se comparado com os números das imigrações italiana, portuguesa, espanhola, japonesa ou alemã. Mas o que une todas essas levas são as causas: a pobreza, o superpovoamento das aldeias, a crise agrária, o insuficiente desenvolvimento industrial, as duas Guerras Mundiais. A emigração era com frequência a única salvação diante da miséria e fome. Mas, “no caso da Polônia – escreve o autor – a emigração foi ainda influenciada pela conturbada história desse país, com destaque para o imperialismo da Prússia, da Rússia e da Áustria, que, em 1795, após três consecutivas partilhas, apagaram a Polônia, durante 123 anos, do mapa político da Europa. A reconquista da independência, em 1918, foi antecedida por uma série de levantes malsucedidos, e seus combatentes, com receio das inevitáveis represálias por parte dos invasores, optavam pela emigração”.
Além disso, a mobilidade dos habitantes do Velho Continente era facilitada pelas políticas migratórias dos países como Estados Unidos, Canadá, Brasil e Argentina. Por um tempo os governos desses países financiavam as despesas do transporte dos emigrantes da Europa. Uma das causas desse movimento migratório era a própria abertura desses países à emigração: o Brasil, graças à boa conjuntura mundial para o café na segunda metade do século XIX, era o país que oferecia as condições mais favoráveis para a aceitação dos emigrantes em escala maciça. Um dos elementos da modernização e da tentativa de branqueamento do Brasil devia ser a busca de mão de obra alternativa para a força de trabalho escrava, em forma de trabalhadores assalariados ou colonos trazidos da Europa. Jerzy Mazurek aprofundou os temas ligados a esta grande leva de emigração como a economia do país de saída e do país de chegada, história das organizações sociais e o papel da Igreja Católica na vida dos núcleos polônicos, entre outros. O resultado da sua pesquisa é fundamental para a melhor compreensão da formação do Brasil, na qual um dos papéis importantes, sem dúvida, é desempenhado pelos descendentes dos imigrantes europeus.