segunda-feira, 19 de março de 2018

SAUDADE DE JOSÉ MARIA NEVES


Por Vasco Mariz

José Maria Neves foi o presidente da Academia Brasileira de Música que menos tempo exerceu o seu mandato, apenas alguns meses. Depois teve de licenciar-se para fazer intenso tratamento que infelizmente não surtiu o efeito esperado. Faleceu a 27 de novembro de 2002, aos 59 aos de idade, cercado pelo afeto de seus muitos amigos, colegas e admiradores. 

José Maria era musicólogo, pesquisador, regente e compositor, embora poucos conheçam a sua obra de criador. Nascido em São João del Rei, Minas Gerais, estudou na cidade natal e no Rio de Janeiro. Conheci-o em Paris, em casa de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, que o tinha em alta conta. Acabava ele de fazer o mestrado e o doutorado no Instituto de Musicologia de Paris, onde também frequentou o Conservatório Superior de Música em cursos de especialização. 

Ele teria depois no Brasil brilhante carreira no magistério da música, chegando ao mais alto escalão universitário. Ao falecer já estava aposentado, embora continuasse a dar classes na UNIRIO. Certa vez, convidou-me a proferir uma palestra para seus alunos em comentário aos meus livros sobre música brasileira. Sua atuação como pesquisador foi intensa e profícua, obtendo o reconhecimento da classe e das autoridades culturais. Ensinou, ainda, no Conservatório Brasileiro de Música por mais de dez anos (1971-82), onde também coordenou programas de pós-graduação. Em 1997 recebeu a consagração de ser eleito o musicólogo do ano pela FUNARTE. 

Dentre sua obra bastante numerosa e importante, saliento seu livro editado pela Ricordi em 1982, intitulado Música Brasileira Contemporânea, que foi a ampliação de sua tese de doutorado na França. Nele podem ser lidas algumas das melhores páginas de apreciação das obras de nossos compositores modernos. José Maria estava planejando atualizar esse livro tão meritório e eu tive o prazer de passar-lhe todos os dados e depoimentos de músicos contemporâneos que utilizara para preparar a 5ª edição da minha História da Música no Brasil. Aliás, nesta fase, em 1999, submeti a José Maria o longo capítulo sobre música colonial, recebendo dele valiosas sugestões. Curiosamente, em carta ao editor, escrevi que, após a minha morte, somente José Maria estava autorizado a revisar o meu livro. Quis o destino que ele partisse antes de mim. 

Entre suas obras lembro também seu primeiro livro, publicado em 1981, O Choro e os Choros, que figura dignamente na bibliografia de Villa-Lobos. Contém excelente análise, talvez a melhor feita até agora, dessa importante série musical do mestre. Outra obra significativa e vistosa foi Música sacra mineira, resultado de um excelente trabalho de equipe, que tardou um pouco a ser publicado pela FUNARTE por falta de verbas. 

Mas, José Maria foi, ao longo dos anos, um bom amigo, além de um bom colega. Em meados dos anos noventa viajamos juntos à Terra do Ouro e ele teve a paciência de mostrar-me todos os segredos artísticos de São João del-Rei, Tiradentes e Prados. Assisti um concerto por ele dirigido com a Orquestra Ribeiro Bastos, na igreja de São Francisco de sua cidade natal, no qual apresentou o belo Te Deum, de Francisco Manuel. 

Pouco tempo depois, a Secretaria de Cultura do Paraná desejou fazer uma homenagem a Brasílio Itiberê e pediram-me sugestões para a organização da obra. Indiquei então José Maria Neves para redigir a análise da obra e Maria Augusta Machado para coligir dados para a biografia do compositor. Escrevi o prefácio do livro, que foi publicado em bonita edição em 1996. Do mesmo modo, durante a minha gestão na presidência da Academia Brasileira de Música (1992-93), encomendamos à Dra. Maria Cecília Ribas Carneiro a biografia de seu ilustre tio-avô Glauco Velásquez e escolhi José Maria para fazer a análise de sua obra. Após longa gestação, o livro finalmente foi publicado em 2001 e pode ser adquirido através da secretaria da ABM ou de seu portal http://www.abmusica.org.br/

Esse relacionamento cultural com nosso finado presidente culminou com a publicação pela Academia da 6ª edição atualizada e ampliada de A Canção Brasileira de Câmara. Em meados de 2002, conversava com José Maria sobre a dificuldade de encontrar editor para essa obra tão especializada, quando ele alvitrou submeter à diretoria da ABM a conveniência de editar a minha obra, que foi lançada no Rio de Janeiro pela editora Francisco Alves. Recordo ainda que, em 1998, quando José Maria Neves foi eleito membro titular do PEN Club do Brasil, ele me distinguiu com o convite para fazer a saudação oficial na sessão de posse nessa entidade. Aliás, serei sempre grato a José Maria pela sua generosidade de recordar com elogios a minha penosa gestão à frente da ABM. 

José Maria Neves, musicólogo que ocupou a Cadeiranº 12 da 
Academia Brasileira de Música patroneada por José Maria Xavier, tendo sido seu presidente entre 2001 e 2002, até seu falecimento; presidente da ANPPOM-Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Gradução em Música por duas gestões, de 1995 a 1999
José Maria Neves não será esquecido, pois as suas obras aí estão para perpetuar sua exitosa carreira de pesquisador e musicólogo. A Academia Brasileira de Música, a sua diretoria, cada um de seus membros titulares e nosso secretariado lhe prestaram homenagem, agradecidos pelo seu convívio inteligente e sempre tão cordial que encantava a todos - colegas, alunos, amigos e subordinados. Deixou imensa saudade e sua memória estará sempre presente. 

Finalmente, não posso deixar de informar aos interessados que o primoroso livro de José Maria Neves Música Brasileira Contemporânea teve uma bela 2ª edição revista e ampliada pela professora Salomea Gandelman e publicada pela editora Contracapa, em 2008, cuja leitura recomendo sem reservas. 

Fonte: MARIZ, Vasco: Vida Musical IV - Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Música 



REFERÊNCIA  BIBLIOGRÁFICA


MARIZ, Vasco: Saudade de José Maria Neves, artigo originalmente publicado na revista Brasiliana nº 13, da Academia Brasileira de Música, em janeiro de 2003.

12 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

O Blog de São João del-Rei tem a honra de cadastrar entre seus colaboradores o nome ilustre de VASCO MARIZ, ainda que postumamente. O referido colaborador foi historiador, musicólogo, escritor e diplomata brasileiro.
Nenhum autor brasileiro publicou mais livros sobre música brasileira do que ele.
Também é conhecido por seus amigos, colegas, discípulos e admiradores como "o incansável promotor da música e do músico brasileiros", quando em sua missão diplomática no exterior.
Especificamente neste artigo, vamos ouvir o mestre Vasco Mariz falar sobre seu amigo JOSÉ MARIA NEVES.

anizabel nunes rodrigues de lucas disse...

Obrigado por ter-me enviado o rico documentário.que faz alusão ao querido amigo JOSÉ mARIA.NÃO CONHECIA ATÉ ENTÃO vASCO MARIZ TÃO IMPORTANTE DIVULGADOR da nossa música e de nossos artistas brasileiros . Parabéns pelos belos trabalhos desenvolvidos entre a riquíssima parceria : você e José Maria .Abraços.

Danilo Carlos Gomes (cronista, escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e da Academia Brasiliense de Letras) disse...

Mestre Braga,
Vasco Mariz merece todas as nossas homenagens, póstumas ou não. Trabalhou muito pela literatura e pela música, pela diplomacia, pela cultura. Foi um grande e exemplar brasileiro, honesto e honrado, bem longe dessa corja de políticos e empresários corruptos que arruínam o Brasil, com pose messiânica, às vezes. Parabéns! Abraço do marianense-brasiliense Danilo Gomes.

Diamantino Bártolo (professor universitário Venade-Caminha-Portugal, gerente de blog que leva o seu nome http://diamantinobartolo.blogspot.com.br/) disse...

Muito obrigado.

Estamos sempre a aprender com o meu caro amigo.

Boa noite.

Abraço.

Diamantino Bártolo

Dr. Arnaldo de Souza Ribeiro (advogado, escritor e presidente da Academia Itaunense de Letras-AILE) disse...

Quero agradecer-lhe pelas notícias de dois ícones da cultura e da música brasileira. Confesso que não os conhecia. Visitarei com mais frequência o seu Blog.
Reitero meus agradecimentos, com um fraternal abraço, extensivo à sua esposa.
Arnaldo

Eudóxia de Barros (insigne pianista, concertista e membro da Academia Brasileira de Música) disse...

Bravos !!!

Eudóxia.

Prof. Fernando de Oliveira Teixeira (advogado, professor universitário, escritor, poeta e presidente da Academia Divinopolitana de Letras) disse...

Muito agradecido pelo envio, caro Braga. Abraço do Fernando Teixeira

Dr. Rogério Medeiros Garcia de Lima (professor universitário, desembargador do TJMG, escritor e membro da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

José Maria era um gigante!

Maria da Graça Menezes Mourão (especialista em História e Cultura de Minas Gerais e membro do IHG de Minas Gerais) disse...
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Maria da Graça Menezes Mourão (especialista em História e Cultura de Minas Gerais e membro do IHG de Minas Gerais) disse...

Senhor Francisco Braga,
recebo sempre com efetiva alegria as suas publicações.
Na oportunidade, de fazê-lo ciente, envio-lhe o link da revista ASBRAP com artigo de minha autoria, a respeito do Mestre Lucas Chaves, de Barbacena. Ficarei agradecida com a divulgação.
Maria da Graça Menezes Mourão.

http://www.asbrap.org.br/documentos/revistas/rev24_art2.pdf

Rafoio.'. disse...

Excelente artigo. José Maria Neves é um ícone da nossa música...

Prof. Cupertino Santos (professor de história aposentado de uma escola municipal em Campinas) disse...

Prof. Braga!
Comovente a sua referência diretamente ao grande Vasco Mariz e indiretamente ao não menos destacado José Maria Neves, numa única publicação! É o que se pode fazer quando figuras como essas se vão, deixando lacunas difíceis de se preencher.
Parabéns!